terça-feira, outubro 28, 2003
Da escura imensidão das trevas Um fio de luz emerge, Tímido mas seguro, Como rasgo inicial, Princípio de todas as coisas. As árvores dançam suavemente ao sabor da brisa leve E a noite já se esconde por detrás dos picos brancos. Ao longe um lago plácido, como espelho de prata Reflectindo núvens difusas e breves, paz e melancolia. Em fundo ecoa uma flauta, talvez de algum pastor Perdido na imensidão das montanhas verdes. Vem o sol a caminho, a luz do novo dia, Mas este o melhor de todos, glorioso, Promessas em cascata de ribeiro manso, Água deslizando em desfiladeiro De pedra branca em pedra branca, Seixos quietos neste caminho de peixes. Na velha cabana em madeira antiga Sai um fio de fumo branco da chaminé, E perto um cavalo pasta mansamente A relva em volta dos castanheiros. Já as sombras desaparecem, Algures um rouxinol canta, E algum outro lhe responde. Que alegria, o dia já nasceu, E despede-se agora da noite Com amizade, com saudade já, Adeus, noite, vai, vai, Sem medo nem castigo. Logo voltas E despedimo-nos outra vez. Mas agora vai, deixa-me, É bom estar vivo E começar tudo de novo Como se nunca nada tivesse existido.
Concerto para piano e orquestra em Lá Maior, Adagio Assai, Maurice Ravel
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5:48 da tarde
quinta-feira, outubro 23, 2003
manual de pesadelos
Oiço ainda o crepitar das tuas lágrimas e em terríveis pesadelos vejo o teu corpo já cadáver, ilha de lava petrificada com cratera de vulcão ao meio, o teu coração, de onde escorre para o mar um rio de sangue negro. Recordo-te em vida, rindo, criança, as coisas leves que dizias, poeta, e achava-te impossível (sabias?) mesmo quando não entendia nada e ficava à espera de te ouvir rir de novo.
E é isto sempre, quando o dia está a nascer, a minha hora, a que te ofereci tantas vezes, oiço uma voz no quarto onde estou só eu, oiço-me dizer "não, não me morras tu agora" olha, agora não, que não há vento lá fora não me deixes assim, espera, fica, só mais um instante, por favor, juro que depois deixo-te dormir outra vez.
E umas vezes acordo, outras não, mas nunca tenho a certeza se me morreste mesmo, ou se alguma vez exististe, sequer, ou se fui eu quem te imaginou se fui eu quem te deixou partir se fui eu quem te deixou para sempre, lágrimas e riso ao mesmo tempo.
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4:14 da tarde
segunda-feira, outubro 20, 2003
Nós andamos cá para fazer os outros felizes. Contigo, sinto-me perto de Deus. O que tu me dás? Paz, muita paz. Só o amor faz sentido. Não sei se a tua lucidez não será má para ti. Preciso de ti, se não puder ser de outra maneira, mesmo por empréstimo. Tu és um bom ser-humano. Genuíno e íntegro, pelo menos.
Quando eu morrer, coração, levo estas tuas palavras comigo, a rebentar de orgulho por te ter conhecido. A eternidade é isso também, o que alguém nos disse em exclusivo.
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12:20 da manhã
domingo, outubro 19, 2003
... e acabamos em pequena morte, abraçados, o sangue ainda fervendo, a pele de ambos rebrilhando, num só corpo, numa vida só. É então que o tempo pára, que não há vento nem ruído, que no mundo não há mais nada, nem a mais vaga recordação. Abres os olhos por um momento e sorris só para mim. É então que sei o que é a paz e que, afinal, não acabamos nada; apenas recomeçamos.
E acabamos em pequena morte, abraçados, o sangue ainda fervendo, a pele de ambos rebrilhando, num só corpo, numa vida só. É então que o tempo pára, que não há vento nem ruído, que no mundo não há mais nada, nem a mais vaga recordação. Abres os olhos por um momento e sorris só para mim. É então que sei o que é a paz. E que afinal não acabamos nada. Apenas recomeçamos.
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6:02 da tarde
quarta-feira, outubro 08, 2003
Vive a vida agora como se fosses chuva reluzente e fria. Vive a vida hoje como se fosses relógio sem ponteiros. Vive a vida sempre como se tivesses o cálice sagrado da coragem. Leva contigo um mapa ou segue apenas a tua estrela. E nunca te esqueças de como é preciosa a vida que levas contigo: o teu destino gravado a fogo na alma que é só tua.
para ti, L.
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12:54 da tarde
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